
OLHA O ACONTECE QUANDO SE PÕE IGNORANTES NO PODER...
Mestres em extinção.
MEC alerta para o envelhecimento da categoria: 60% dos 2,5 milhões de educadores do País estão próximos da aposentadoria. No estado, 1.326 professores encerraram a carreira este ano
Carol Medeiros e Maria Luísa Barros.
Rio - Uma situação alarmante vem tirando o sono do Ministério da Educação (MEC). De um lado, professores envelhecidos; do outro, jovens que não se interessam mais pela carreira do magistério devido aos baixos salários e às precárias condições de trabalho.
Entre os dois extremos, estão mais de 2 milhões de estudantes cursando o Ensino Médio. Em 10 anos, as turmas cresceram 84%.
Relatório elaborado pelo ministério e que aponta para risco de “Apagão no Ensino Médio”, como O DIA vem mostrando desde domingo, revela que 60% dos 2,5 milhões de mestres brasileiros estão mais próximos da aposentadoria que do início de carreira.
Maior universidade do Rio e uma das federais mais importantes do País, a UFRJ formou ano passado apenas 652 mestres nos seus 29 cursos de licenciatura — 45 a menos que no ano anterior. Mesmo que todos fossem contratados imediatamente pelo estado, ainda assim seriam insuficientes para cobrir a carência em sala de aula.
De acordo com levantamento do Sindicato dos Professores Públicos do Estado do Rio (Uppes), de janeiro até hoje 1.326 professores se afastaram da rede estadual por motivo de aposentadoria. Um dos próximos nesta lista é o professor de Português e Latim Leci Batista da Costa, 69 anos, que espera se aposentar até o fim do ano: “O que eu ganho só dá para sobreviver porque não tenho obrigação com filhos. Se tivesse família, teria que fazer outras coisas para arcar com a responsabilidade e, com certeza, não poderia parar agora”.
No magistério desde 1969, Leci continua lecionando na rede estadual, mesmo de licença, para não deixar turmas inteiras da Escola Estadual Iran, em Vista Alegre, sem professor. “Ele está dando aula como voluntário para cobrir essa carência, sem ganhar nada. Além de dois dias de aula, ofereceu-se para dar tempos de reforço em mais um dia da semana. Esse tipo de professor não existe mais”, elogia a diretora Lisete Marques.
PISO MUITO BAIXO.
A evasão de mestres ano a ano é motivada sobretudo pelo piso da categoria, um dos mais baixos do estado: R$ 431 por 20 horas por semana.
Domésticas têm piso de R$ 424,02 e garçons, de R$ 456,16.
Ontem, o governador Sérgio Cabral anunciou reajuste de 25% para ativos e inativos que incidirá no contracheque em 24 meses.
Recebendo salários muito abaixo de suas necessidades, professores são obrigados a fazer bicos para aumentar a renda. É o caso da professora de Educação Física Cristina Guimarães, 51 anos, que montou em casa um serviço de bufê. “Eu não conseguiria educar os meus filhos apenas com o salário que recebo em duas escolas públicas”, conta. Sem vencimento decente, não sobra dinheiro para investir na formação cultural.
Pesquisa da Unesco em parceria com o MEC constatou que 62,1% deles nunca estiveram num concerto clássico e 62,7% jamais foram a um show de rock. A maioria (58,4%) não navega na Internet e 74,3% assistem à TV diariamente.
VOCAÇÃO PARA AJUDAR O OUTRO.
Após 38 anos no magistério, o professor de Português Leci não quer parar com a chegada da aposentadoria. “Meu desejo é continuar fazendo alguma coisa dentro do magistério. Nesse tempo todo em sala de aula acumulei muita experiência em relacionamento humano. Acho que ainda posso ajudar os estudantes, aqueles que querem aprender de verdade, que vêem a educação como a porta para um mundo diferente”, sonha o mestre, que dá aulas para alunos de 8ª série do noturno. “Sou professor por vocação. Decidi continuar para dar reforço aos alunos”, diz.
Bufê para pagar despesas.
Por causa do baixo salário, a professora Cristina Guimarães, 51, se desdobra numa tripla jornada de trabalho para conseguir pagar as contas. Além de dar aulas de Educação Física em duas escolas públicas — Colégio Estadual Raul Vidal e Colégio Estadual Melchíades Picanço, em Niterói —, Cristina abriu um bufê que a obriga a trabalhar todos os fins de semana. “Estou há anos sem tirar folga, tenho três filhos que dependem de mim. Não conseguiria educá-los apenas com salário do estado. Ser professora nesse país é muito complicado”, diz. O cansaço, porém, não lhe tira o ânimo para continuar junto dos alunos: “Não deixei de dar aula, porque é disso que gosto. Mas a situação financeira está cada vez mais difícil”.
DOUTOR SEM AUMENTO.
O título de doutorado conferido ao professor de Filosofia e Sociologia Écio Elvis Pisetta, 42 anos, não representou um centavo a mais no contracheque. “Após 14 anos no estado, trabalhando 40 horas semanais, recebo R$ 2 mil. Na universidade federal, o professor-doutor recém-contratado recebe cerca de R$ 5 mil”, lamenta. Écio dá aulas no Colégio Estadual Ercília Antônio da Silva, no bairro de Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias, enquanto aguarda uma oportunidade para largar a função. “Terminei o mestrado em 1999 e desde então entrei com vários processos pedindo gratificação, mas até hoje nada”, queixa-se.